| Da embaixada do
absurdo às gaffes de G.W. Bush
Miguel Portas, 19.07.2006

Educação cívica em Kiryat Shmohe, no nordeste
de Israel.
1. Admitamos
por 1 minuto que a história desta guerra começou
com o rapto de um soldado que integrava as forças de
defesa israelita ao perímetro de Gaza. Ou seja, que foram
“eles”, os palestinianos, “que começaram”.
Admitamos ainda que Gaza não é uma prisão
que os carcereiros entregaram aos encarcerados, mas parte de
um país com as suas instituições estatais.
Admitamos também que Israel não detém
nove mil prisioneiros palestinianos, entre os quais se encontram
centenas de adolescentes.
Admitamos, até, que Israel nunca trocou prisioneiros.
Mesmo que uma nota da sua embaixada em Portugal nos explique
que “Israel já trocou centenas de prisioneiros
terroristas para recuperar os corpos de alguns soldados mortos,
quando não havia outros meios para garantir o seu retorno”(1)...
Admitamos.
2. E
pergunte-se: mesmo que tudo assim fosse, justifica-se o que
se seguiu?
Justifica-se colocar milhão e meio de pessoas a duas
e três horas de água por dia?
Justifica-se o fecho, durante uma semana, da única
fronteira por onde entram os abastecimentos a uma língua
de terra onde a única coisa que aí cresce é
o cimento armado?
Justifica-se o rapto de 64 deputados, de um terço do
governo, e até de um vice presidente da comissão
política da Assembleia Parlamentar euro-mediterrânica?
Justifica-se o bombardeamento de inúmeros edifícios
que cumpriam funções de natureza pública,
da transformação de electricidade ao ministério
da economia?
ustifica-se, enfim, que o saldo da “resposta” ultrapasse
já a centena de mortos civis, ou seja, de pessoas que
não andam com tubos Qassam aos ombros?
A desproporção da resposta, mais do que óbvia,
indigna o mais endurecido dos corações. Mas para
a embaixada de Israel, a justificação é
simples: “Lembramos mais uma vez que foi o próprio
povo palestiniano que elegeu um governo dirigido pelo Hamas,
uma organização terrorista”(1)...
3. Para
aliviar a insuportável pressão sobre Gaza, um
outro partido árabe, o Hezzbollah libanês, decidiu
raptar dois soldados israelitas. Não é claro onde
a operação decorreu, porque as versões
divergem. Mas também não é relevante. O
Peace Corps das Nações Unidas que vigia
a “linha azul”, ou seja, a fronteira entre os dois
países, regista nos seus relatórios inúmeras
violações do espaço territorial e aéreo
por ambas as partes. E Israel ocupa ainda uma língua
de terra libanesa, as chamadas quintas de Chebaa.
Mas admitamos a versão hebraica dos acontecimentos.
Admitamos também que Israel nunca ocupou o Sul do Líbano,
não bombardeou Beirute, nunca teve nada a ver com o massacre
de mais de mil palestinianos nos campos de refugiados de Sabra
e Chatila, situados no Sul daquela cidade, nem detém
em seu poder dezenas de prisioneiros libaneses.
Admitamos ainda que uns dias antes da “retaliação”,
o exército libanês não desarticulou uma
rede terrorista paga, formada e equipada pela Mossad, operando
no interior do Líbano e responsável por, pelo
menos, 4 atentados, o último dos quais em 26 de Maio
último.
Admitamos.
4. Ainda
assim, a pergunta é: justifica-se o que estamos a ver?
Justifica-se a chuva de fogo que se abateu sobre o Líbano?
A destruição de aldeias e o bombardeamento sistemático
das periferias urbanas de maioria chiita?
Justifica-se a fria destruição de todas as infraestruturas
vitais à economia de um país - do aeroporto de
Beirute às principais vias de comunicação
com o exterior, passando pela redução a pó
das centrais eléctricas – fazendo-o recuar, como
o próprio Chefe do Estado Maior israelita, Dan Halutz,
reconhece, “30 anos para trás”?
Justifica-se o bombardeamento de uma das principais estações
de televisão, a Al Manar, só porque ligada ao
Hezzbollah?
E finalmente, justifica-se que por causa do rapto de dois
soldados, se comece uma guerra que eleva os mortos civis dos
dois lados para a casa das centenas e, se isto não parar,
seguramente para a dos milhares?
A desproporção é, também neste
caso, por demais evidente. Mas para a embaixada de Israel tudo
se explica. Segundo nota de 13 de Julho, os bombardeamentos
têm objectivos circunscritos: “não deixar
os soldados raptados serem levados para outro país”
e “alvos específicos da organização
terrorista”. Para encontrar explicação para
o facto do Líbano estar a ser levado de novo para os
anos setenta, será preciso encontrar, perdida entre linhas,
uma tão enigmática quanto reveladora frase: “os
sequestros são um sintoma, não a causa desta reacção”
(1)...
5. Há
uma saída para esta guerra que tem todas as condições
para alastrar? Ontem mesmo os microfones captaram, em off
record, um palpitante momento do almoço do G8. A
G.W. Bush, a braços com a tragédia iraquiana,
não quer que as coisas derrapem, por agora, no Levante
Mediterrânico. Não há tropas para tudo,
nem aliados regionais que tudo aceitem sem pestanejar. De momento,
prefere a redução de danos. Depois de nas Nações
Unidas, os EUA terem vetado uma resolução que
apelava ao cessar fogo, é elucidativo o comentário
que fez a Blair: “a ironia disto é que eles têm
de conseguir que a Síria faça com que o Hezzbollah
pare de fazer aquela merda”. Como?, se o imperador não
se digna a falar com ditadores? “Vou telefonar ao Annan
(nr: secretário geral das ONU) para falar com
o Assad (nr: presidente sírio)”...
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vídeo
6.
O que G.W.Bush deveria saber de cor e salteado é que
não haverá Paz no Médio Oriente enquanto
não existir um Estado Palestiniano soberano e viável.
Não há outra saída para este conflito de
cinco décadas. Isto mesmo o reconhecia Henry Siegman,
a 8 de Junho, no insuspeito Financial Times: “Israel existe.
Que o Hamas o reconheça ou não, isso nada acrescenta
ou diminui ao que é irrefutável. Em contrapartida,
40 anos depois da guerra de 67, não existe ainda Estado
Palestiniano. A questão politicamente pertinente que,
em consequência, se coloca, é a de saber se Israel
reconhece ou não o direito dos palestinianos a ter um
Estado. E não o inverso” (2).
(1)
nota explicativa da Embaixada de Israel, datada de 13 de Julho
(2) The issue is not whether Hamas recognizes Israel, Financial
Times de 8 de Junho
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