Arafat
Artigo publicado no Diário
de Notícias, Opinião, 11.11.2004
No
momento em que escrevo, a vida de Arafat pode estar ligada à
máquina ou ter-se, definitivamente, finado. Seja como for,
o seu afastamento da liderança encerra um ciclo na História
da Palestina.
O tempo que agora se abre é
dos mais difíceis: porá à prova a consistência
e maturidade da resistência à ocupação.
Quase tudo, naquela terra sofrida, conjuga a tragédia.
Em primeiro lugar, a partida da
figura que tem condensado a vontade da nação. Arafat
tinha muitos defeitos e o seu Governo estava longe de ser modelar.
Mas o velho líder, não
escapando às críticas, tinha desconto. Contra ventos
e marés, ele foi o homem que deu rosto a um povo e se confundiu
com a causa nacional. E isto ninguém esquece.
A sua partida põe um problema
de sucessão e de legitimidade.
O «estado de graça»
de Arafat não é transferível para os possíveis
candidatos à sucessão. Ele tem que ser legitimado
e, em seguida, construído e conquistado onde Arafat falhou:
no governo da coisa pública e na estratégia para
um Estado palestiniano viável.
Porque a questão da legitimidade
é decisiva, a sucessão não dispensa a consulta
ao povo.
Qualquer outra variante palaciana
será uma via rápida para o caos, o maior presente
que as lideranças palestinianas poderiam oferecer a Israel.
A primeira prova é, portanto,
palestiniana: conseguirão uma transição unificada
até às eleições?
De momento, os sinais são
animadores. A Autoridade Palestiniana deslocou-se em bloco a Paris
e em Gaza as facções armadas estabeleceram tréguas
entre si.
Se Arafat morrer, o seu enterro,
independentemente do lugar, terá dimensão emocional
e popular equiparável ao de Nasser. Sim, do lado palestiniano,
podem existir condições para uma transição
coligada.
Mas falta o resto.
Ariel Sharon não reconhecia
Arafat. Porque passará a reconhecer outro que não
pode escolher?
O segundo «se» respeita,
por isso, à comunidade internacional e à pressão
que exerça para a realização de eleições
que dependem em grande medida de Israel.
Com efeito, a Israel compete garantir
que o recenseamento em Jerusalém e nos territórios
se pode fazer; e a Israel compete levantar os entraves à
mobilidade dos palestinianos na sua própria terra. Não
o fará se a isso não for obrigado. Porque uma nova
liderança, eleita democraticamente, coloca Ariel Sharon
ante a inevitabilidade de negociar. E isso tem sido tudo o que
ele tem procurado evitar.
Chegamos assim ao terceiro «se»,
o mais difícil: não é crível a realização
de eleições sem que previamente Israel e as facções
palestinianas cheguem a um acordo de tréguas temporárias.
A anterior falhou porque os ambientes estavam envenenados e Israel
não parou com as execuções extrajudiciais.
Agora, é indispensável
um acordo que as interrompa, para além de suspender a dança
macabra das bombas suicidas e das retaliações punitivas
sobre as cidades palestinianas. O Hamas respeitará um acordo
deste tipo - é quem mais tem a ganhar com eleições.
A bola está do lado de Israel. E em Bush, claro. Eis porque
quase tudo se conjuga para o desastre?
Oh deus, vê lá se
desta vez apareces.
mportas@europarl.eu.int