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Nós e a Europa (1)
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
23.12.04
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Foto:
portugalnoseumelhor.com
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Eis
como coloco a equação: Portugal, país pobre
e periférico no contexto europeu, precisa da União
para a sua modernização. Mas a estratégia que
esta prossegue, e a sua submissão à ortodoxia financeira,
limita esse objectivo na multiplicidade das dimensões que
exige.
Dito de outro modo os fundos comunitários
permitiram a Portugal uma modernização que não
foi às raízes do nosso atraso. No período que
agora se abre, não apenas os montantes, mas o seu efeito,
será progressivamente menor, a não ser que se verifiquem
alterações de qualidade nas políticas europeias.
A prova foi feita nos últimos
anos a recessão económica e a regressão social
do País não decorreram da crise económica internacional,
mas dos seus efeitos sobre um modelo de desenvolvimento já
esgotado.
Os fundos comunitários foram
simultaneamente uma almofada (sem eles, a crise de emprego teria
sido abissal) e uma desculpa para se adiar o inadiável -
uma nova estratégia nacional de desenvolvimento.
Esta não dispensa, antes
exige da Europa. Sobre três domínios não deve
haver lugar a equívocos.
Primeiro as perspectivas financeiras
para 2007-2013, que determinam o quadro dos orçamentos comunitários
para o período. Os países ricos querem orçamentos
pobres, que não excedam 1% do PIB europeu. Os países
periféricos e os do mais recente alargamento, pelo contrário,
têm todo o interesse em montantes reforçados. Discutir
o «bolo» global não nos isenta de uma melhor
aplicação da parte que nos caiba. Mas quando o bolo
per capita diminui e o alargamento se fez a países com elevadas
necessidades, é evidente que isso exige uma atitude negocial
de combate e não de «bons rapazes».
O futuro Governo deve ter a coragem
de, invocando uma nova legitimidade, situar a posição
portuguesa numa base negocial mínima de 2% do PIB, sob o
argumento, modesto, de que menos do que isso não responde,
simultaneamente, às necessidades do alargamento, à
salvaguarda das antigas periferias e ao lançamento de programas
europeus geradores de novo emprego e qualificações,
nomeadamente nos domínios do ambiente e da educação
e investigação científica.
Segundo a directiva sobre o horário
de trabalho, que o «asiatiza». Em nome da competitividade
e da estratégia de Lisboa, o que se discute são horários
que podem chegar, com o consentimento do trabalhador, a 65 horas
semanais, ou seja, a 11 horas de trabalho diárias, sábados
incluídos! Nisto, não há meio termo possível.
Este documento não apenas precariza o emprego na Europa,
como eterniza o desemprego. A alternativa a este horizonte é
o impulso europeu a programas de emprego e novas modalidades de
repartição do trabalho por quantas e quantos dele
careçam. A esta peça há que adicionar ainda
outra directiva que liberaliza os agora chamados serviços
de «interesse geral», onde o papel dos Estados passa
à condição de subsidiário da iniciativa
privada.
Terceiro o Tratado Constitucional.
Quem o compre, deve ficar a saber duas coisas: que ele não
impede, antes estimula, directivas como as acima referidas; e que
o sistema de poder que instala é o desejado pelos Governos
dos países mais ricos, precisamente aqueles que desejam uma
Europa de políticas públicas de baixo perfil.
É sobre isto, sobre os conteúdos
das políticas e não sobre arranjos, que o debate à
esquerda se deve fazer nas eleições de Fevereiro.
Porque um ciclo de mudanças
só se abre com políticas de mudança.
mportas@europarl.eu.int
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