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Menos que revolução e mais que
viragem
Artigo publicado no Diário de
Notícias, Opinião, 05.03.05
No
país dos cedros ocorre menos que uma revolução
e mais que uma viragem. Três notas de interpretação
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Visto de fora, o Líbano tem sido, basicamente, um pedaço
de terra à disposição de terceiros. A França
traçou-lhe as fronteiras, elegeu os seus preferidos -
os cristãos maronitas - e um dia teve que partir. Vê
agora, na sucessão dos acontecimentos, a oportunidade
de um "retorno".
Os norte-americanos também se mexem. Com a reeleição
de Bush, o Império quer agora unificar os poderes de
ocidente e das elites árabes em nome da "democracia
e da liberdade". Os alvos da nova estratégia são
o Irão e a Síria. E só por isso, o Líbano.
Nesta terra, os EUA testam Damasco. E, em troca do realinhamento
francês, darão a Chirac a incumbência libanesa.
-
Alinhadas as cartas das potências clássicas,
passe-se à Síria, ao Irão, à Arábia
Saudita e a Israel. Para os primeiros, o Líbano faz parte
da sua "zona de influência". Historicamente,
as populações misturaram-se e, a partir dos anos
50 - com a afirmação da ideia pan-árabe
de um lado, e o nascimento de Israel por outro - a Síria
nunca deixou de ter sólidos amigos em Beirute. Sucede
que a todos aliciou e a todos traiu. Desde o início da
guerra civil, ainda nos idos de 70, pensou apenas em si. Ainda
hoje, aliás. Começou por apoiar as forças
laicas e socializantes para depois se passar para o lado da
burguesia maronita. Desferiu golpes fatais nos palestinianos
e acariciou a emergência dos movimentos religiosos. Com
o Irão, deu cobertura à ala militar do Hezbollah,
a quem deixou as tarefas da guerra fronteiriça com Israel,
um gesto que este Estado, de resto, apreciou. E em 1989, no
fim de uma guerra de todos contra todos, consumou a tutela militar
do Líbano. É vulgar ouvir sírios dizerem
que o seu país foi para o do vizinho garantir o que estes
se mostravam incapazes de fazer a paz. Infelizmente, não
foi verdade. A Síria jogou na eternização
da guerra até que o país lhe caísse nas
mãos. E para que caísse, alinhou com os EUA e
a Arábia Saudita na Guerra do Golfo. Exacto! No momento
em que ao Koweit era restituída a sua soberania territorial,
os EUA cobriam a tutela militar do Líbano. Como tanto
mudou em 15 anos: os EUA dando a sua bênção
ao fim da soberania libanesa em troca do alinhamento da Síria
na "comunidade internacional"....
Com os outros actores, é mais simples: o Irão
usa a comunidade xiita libanesa como protecção,
a Oeste, contra as aventuras dos "novos cruzados";
Israel também joga na instabilidade do país -
um Líbano dividido em comunidades de filiação
religiosa, legitimaria o Estado confessional judaico; e a Arábia
Saudita e todos os outros, incluindo os já referidos,
pensam sobretudo em negócios no paraíso fiscal
do Mediterrâneo.
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Finalmente, os próprios, os libaneses. Tolerantes e
abertos em tempo de paz, temíveis e fanáticos
na guerra. E todos, mas todos, atacados de complexo de inferioridade.
Pelas razões antes descritas e porque organizados em
comunidades de matriz religiosa. Os xiitas dão voz à
inferioridade da pobreza ante os ricos dos "outros";
os maronitas receiam ser sufocados pela maioria islâmica;
os sunitas invejam o modo como aqueles foram promovidos pela
França; e, finalmente, os drusos e os palestinianos são
minorias entre as minorias. O que é extraordinário
é que ainda assim a nação se tenha levantado,
aproveitando as circunstâncias de um assassínio
não esclarecido - o do mais poderoso e controverso político
libanês. Pouco importa que o crime tenha sido executado
sobre quem melhor ilustrou as cleptocracias de Estado árabes.
Rafic Hariri chegou a Beirute à sombra dos inesgotáveis
recursos do rei saudita. Mas nem esse facto o impediu de colocar
o Estado libanês ao serviço dos seus interesses
privados. Durante anos, a Síria aceitou-o. Mas Rafic,
sabedor das mudanças no "ar do tempo", quis
libertar-se da tutela de um país enviado para a gaveta
do "eixo do mal". Quem o matou? Ninguém sabe,
mas foi por isso que se transformou no "mártir"
de um levantamento pacífico e democrático pela
restituição do Líbano aos seus cidadãos...
De momento, todos parecem de acordo. Até a Síria
declara retirar em seis meses. Mas esta é uma história
árabe. Os velhos hábitos vão insinuar-se no
novo movimento. As lideranças da oposição acabarão
por se conformar ao peso das divisões entre comunidades religiosas
e à tentação da dependência ante "aliados"
externos que nunca quiseram mais do que dividir para reinar. É
uma pena, bem gostaria de me enganar.
mportas@europarl.eu.int
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