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O fio invisível entre lá e cá
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 04.05.05
Nas
urnas foi a enterrar o Tratado Constitucional.
Com pompa e circunstância se o Conselho Europeu dos próximos
dias 16 e 17 decidir que as opiniões públicas,
desta, são para ouvir. Enterrando também as lideranças
europeias, se o autismo conduzir ao prosseguimento do processo
das ratificações.
O bom senso recomendaria caldos de galinha. Mas com Bruxelas
nunca se sabe.
O papel dos analistas é,
por vezes, terem de explicar o que não previam...
Vários associaram os
resultados à impopularidade das políticas e dos
políticos domésticos. A intenção,
obviamente, foi desvalorizar a componente europeia do debate,
aliviando a pressão sobre Bruxelas. Descontada a tentativa,
há razões no argumento. Porque o voto dos eleitores
também traduziu uma avaliação sobre as
políticas e os políticos que têm tido. Nada
mais normal. Nos 25 países, as políticas são
basicamente as mesmas. Todos se subordinam ao mesmo Pacto, à
mesma política monetária e às mesmas directivas
e regulamentos. As diferenças existem, claro: níveis
de desenvolvimento e aquisição de direitos muito
distintos; nuances significativas na aplicação
das políticas definidas em Bruxelas; e tradições
e conjunturas políticas distintas. Mas, dito isto, é
evidente que na França e na Holanda se julgaram as políticas
comuns e os políticos caseiros que integram os conclaves
de decisão europeia.
Os eleitores fizeram bem porque,
em referendo, não estavam condenados à alternância.
Portanto, aproveitaram.
Outros comentadores, constatando
este facto, deduziram que os referendos não foram sobre
o Tratado, mas sobre a crise. Claro que foram sobre a crise.
E por isso sobre o Tratado. Na realidade, ele mais não
é do que a tentativa de dar forma constitucional às
políticas da década de Maastricht, acrescentando-lhes
os ajustamentos institucionais julgados necessários por
causa do alargamento da União. Os eleitores, que não
são juristas, usaram a inteligência e perguntaram-se:
vamos constitucionalizar o que a política destes anos
nos tem dado? E responderam Não.
Como é óbvio,
não disseram Não à Europa. Disseram Não
a esta Europa liberal, pouco democrática e inexistente
no plano mundial. Têm seguramente ideias muito diferentes
sobre o que deve ser a Europa. Mas sabem que esta chegou ao
fim do prazo de validade.
O voto francês e holandês
exibiu o que Luís Salgado Matos chamou de fractura exposta
“entre as elites e as massas” ou, mais prosaicamente,
entre “patrícios e plebeus”. Correcto: na
Europa, não há só uma questão democrática.
Há, na outra face da moeda, a questão social.
Não chega, por isso, arquivar a Constituição
de Giscard d’Estaing. O próximo Conselho terá
de enviar sinais de que entendeu o recado social dos votos.
A agenda deveria ter fasquia alta: suspensão das propostas
de directiva que liberalizam os serviços “por baixo”
e esticam os horários de trabalho para patamares asiáticos;
perspectivas financeiras para 2007/2013 que dêem aos países
mais fracos as garantias de uma construção europeia
solidária; colocar uma pedra na sobrevalorização
do euro; libertar o investimento gerador de empregos e qualificações
dos saldos que medem o défice; e, apaziguadas as almas,
lançar as bases de um debate alargado sobre o futuro
da Europa.
Para quem ainda não
tenha entendido, o desafio é estar à altura da
crise. Claro que há outra escolha: permitir o seu desenvolvimento
larvar...
O debate sobre o futuro provocará
realinhamentos e recomposições em profundidade.
O Não de esquerda adquiriu novas responsabilidades. Obriga-se
a transformar essa recusa em proposta política europeia
e consistente. Do mesmo modo, a esquerda que tomou o tratado
como um “mal menor”, ou o “possível”
no jogo da realpolitik, faria bem em largar o cadáver
e passar ao que conta: a elevação dos patamares
de exigência que podem refundar a Europa sob bases democráticas,
sociais e pacíficas.
Na esquerda, a mensagem
das urnas foi claríssima: é tempo de acabar com
a redução da política “ao que é
possível”. Foi esse calculismo que aprisionou a
Europa à tenaz das políticas liberais e dos egoísmos
nacionais. Essa é a Europa que temos e que a maioria
dos eleitores de esquerda não quis, e muito bem, constitucionalizar.
Esse povo exige dos seus políticos bem mais do que eles
lhes têm dado. Em particular, quer que os socialistas
que sejam, ao menos, vagamente socialistas. Que, por exemplo,
mal se discute o fim do segredo bancário, não
fiquem à direita da direita...
mportas@europarl.eu.int
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