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Armadilha letal
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 09.07.05

New deities
Buddha who breathes through fear
B. Naidus - Arts
for Change
Londres
é a mais importante Babel da Europa. Foi Babel a atingida
pelos quatro atentados terroristas de anteontem. Os visados
foram as pessoas comuns que usam os transportes colectivos para
se deslocarem. Cristãs, muçulmanas ou ateias;
a favor ou contra a intervenção norte-americana
e inglesa no Iraque ou no Afeganistão; de nacionalidade
britânica ou de qualquer outra das mil que habitam a cidade.
Isto são factos, não opiniões. Os destinatários
do terror não são aqueles que um qualquer comunicado
invocará para qualificar o inqualificável.
Vale a pena tirar uma primeira ilação: o terror
de anteontem alvejou a ideia de que os seres humanos, para lá
das suas convicções e origens culturais, religiosas
ou políticas, podem viver em conjunto nas cidades da
Terra comum. Os fundamentalistas islâmicos tomam à
letra a tese de que o Mundo actual se compreende à luz
de um “choque de civilizações” entre
os “bons” e os “maus”. As suas bombas
são as mensageiras mortais dessa absurda e trágica
mundividência.
O problema desta visão do Mundo é que ela se
partilha, simetricamente, do “lado de cá”.
Não me ocupo agora dos intelectuais que lhe deram justificação
ocidental. O que me preocupa são os sentimentos difusos
que voam nessa direcção em largos extractos da
população.
Os atentados de Londres contaminam quer as opiniões
públicas europeias, quer as de influência islâmica
a oriente. A ideia do “desenvolvimento separado”,
cada um em seu lugar e de preferência longe da vista,
tem hoje mais uma multidão de adeptos entre os deserdados,
onde quer que se encontrem.
Na Europa, o terrorismo dos fundamentalistas islâmicos
multiplica – e eles sabem-no – as pressões
sociais e políticas sobre as comunidades imigrantes de
confissão muçulmana. Deste princípio de
escalada esperam os frutos em novos recrutas do ressentimento.
E rezam para que os governos europeus se putinizem na luta anti-terrorista.
Fica tudo mais fácil à bruta.
No mundo de influência muçulmana, os fundamentalistas
sabem que este tipo de actos lhes dá o reconhecimento
da coragem na luta contra os cruzados. Não é difícil.
Porque os cruzados fardados ocupam as terras da Mesopotâmia,
protegem os líderes mais corruptos e se apropriam das
riquezas naturais. A mensagem de que nenhuma bomba longínqua
é demais em face da humilhação, tem, infelizmente,
muito por onde medrar. A armadilha letal está em marcha.
Três anos de absoluta prioridade à luta anti-terrorista
apresentam o mais nefasto dos saldos.
Entre 2003 e 2004 os atentados terroristas quase quadruplicaram.
A ofensiva sobre a Al Quaeda não evitou a disseminação
das redes operacionais do fundamentalismo. A luta anti-terrorista
nos novos protectorados mata tanto ou mais civis do que o próprio
fundamentalismo. Como agora se sabe em Itália –
onde 12 agentes da CIA raptaram um “irmão muçulmano”
para o “trabalharem” no Cairo – os processos
da luta anti-terrorista aproximam-se diabolicamente dos praticados
pelo inimigo. Os investimentos em segurança crescem exponencialmente,
mas o único resultado visível é o que se
pode observar nos resultados de exercício das grandes
companhias do complexo militar-industrial.
Esta absoluta e trágica prioridade das democracias
alimenta uma espiral sem luz ao fundo do túnel. Mesmo
Washington o começa a reconhecer quando no Afeganistão
lança as primeiras pontes aos talibãs e no Iraque
procura falar com as resistências armadas nacionalistas...
Tirar o balanço não justifica baixar os braços.
Ao invés, exige uma nova estratégia para desarticular
a espiral da violência. Retirar ao fundamentalismo islâmico
os pretextos de que este se serve; atacar os circuitos financeiros
que o alimentam; e encontrar soluções políticas
onde as armas falham – tais deveriam ser os objectivos
de uma nova abordagem contra a armadilha em que o Mundo mergulhou.
Três exemplos de sinais que poderiam levar as pessoas
a acreditar: para quando o estabelecimento de prazos para a
retirada das forças de ocupação do Iraque
e sua substituição por uma solução
internacional que favoreça a pacificação?
Para quando a convocação de uma Conferência
Internacional de Paz que obrigue Israel a abandonar a sua política
unilateral? E finalmente, para quando o fim dos offshores financeiros,
medida que atingiria o pulmão do crime político
e económico? Algo que, aliás, depende estritamente
da vontade do G8?...
mportas@europarl.eu.int
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