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A pobreza só atrapalha
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 10.09.05
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Foto:
IUCN World Conservation Union |
18 países,
com 460 milhões de habitantes, pioraram o nível
de vida desde 1990. Retrocederam. Esta uma das constatações
a que chega o último relatório das Nações
Unidas sobre o estado das nações. Ela diz-nos
que o progresso não é avenida que todos frequentem.
O relatório contem outros números
de arrepiar. Dois biliões e meio de seres humanos vivem
com menos de 2 dólares por dia. E quase metade destes,
mais de um bilião, não atingem sequer o dólar
diário. Os especialistas chamam a isto “pobreza
extrema”.
“O mundo tem o conhecimento, os recursos
e a tecnologia para acabar com a pobreza extrema”, garante
Kemal Dervis, administrador do Programa para o Desenvolvimento
das Nações Unidas. Quando as 500 pessoas mais
ricas do planeta somam mais rendimentos do que os 416 milhões
mais pobres, isso é uma evidência. Qualquer criança
faria a pergunta que muitos adultos esqueceram: e não
se podia distribuir melhor?
Podia, mas os líderes não
querem ir por aí.
As Nações Unidas aprovaram, há anos, o
objectivo de reduzir para metade, até 2015, a pobreza
extrema existente em 1990. Coisa modesta. Nesse ano ainda distante,
meio bilião de pessoas continuaria a sobreviver com menos
de 1 dólar por dia. E modesta porque a meta se pode alcançar
desde que os países ricos, durante alguns anos, destinem
0,5 por cento do seu rendimento nacional bruto a esse objectivo.
Sucede que as coisas estão a piorar.
Três quartos da humanidade em pobreza extrema vive ainda
no campo. “A lógica recomendaria que se investisse
prioritariamente na agricultura familiar e nas infrasestruturas
rurais”, afirma Jacques Diouf, director geral da ONU para
a alimentação (FAO). Mas não. “Nos
últimos 20 anos, a ajuda ao desenvolvimento rural dos
países mais pobres passou de 5,14 a 2,22 mil milhões
de dólares anuais”.
As ajudas dos Estados doadores ao desenvolvimento dos países
pobres está a diminuir. Em 2003, arrastava-se, penosamente,
por 0,25 por cento dos respectivos PIB’s. Menos do que
há uma década. E menos de metade do compromisso
que subscreveram para que os Objectivos de Desenvolvimento para
o Milénio pudessem ser atingidos até 2015.
Os sete países mais poderosos aplicam apenas 0,07 por
cento dos seus PIB’s no combate à pobreza extrema!
E 60 por cento desta ajuda nem sequer chega aos destinatários.
Consome-se em burocracia, empresas e agências, transportes,
compra de facilidades, e pagamentos de projectos e especialistas.
A explicação dos líderes mundiais é
a de tudo se resolverá com o mercado e o crescimento
que ele induz. É mentira e eles sabem. Esta “fezada”
que os factos desmentem, é uma cortina tecnocrática
para o princípio que rege a política planetária
– quem puder que se safe.
A obstrução norte-americana
às ajudas ao desenvolvimento e a tragédia de Nova
Orleães, são fragmentos do mesmo filme. Não
havia planos de evacuação porque quem tem carro
safa-se e quem não tem, lixa-se.
Os fundos para a protecção civil foram indexados
às tarefas de defesa e sucessivos avisos sobre a urgência
de reforço dos diques caíram em saco roto. Porque
as políticas públicas não militares são
a “gordura” de que os Estados se devem livrar.
O que mais impressiona, contudo, são os atrasos na
primeira resposta. Em Washington ou Nova Iorque isso não
teria ocorrido. Mas Nova Orleães tinha uma cotação
proporcional aos pobres e pretos que albergava. A Guarda Nacional
da Louisiana, por exemplo, atrasou-se 3 dias. Teve de aguardar
pela autorização formal do Presidente. E precisava
de 1400 homens para arrancar em segurança, o que demorou
a reunir porque 3.800 andam pelo Iraque...
O Império é um tigre de papel. Tão voraz
nos negócios e na guerra, quanto incompetente para acudir
às vítimas de um furacão anunciado nas
traseiras do seu quintal.
Uma maldita honestidade cínica
inunda o palácio do imperador. Washington não
quer saber dos pobres dos outros, porque nem dos seus trata.
Os pobres são uma perda de tempo e de dinheiro. Um investimento
sem retorno. Uma insuportável chatice que nem sequer
vai a votos.
Exagero? De visita ao Astrodome de Houston, que alberga por
estes dias milhares de desgraçados de Nova Orleães,
a mãe do imperador, Barbara Bush, proferiu um edificante
comentário: “uma grande parte desta gente era de
qualquer maneira deserdada. Assim, isto até lhes veio
a calhar”. Mais palavras para quê?
mportas@europarl.eu.int
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