| A face da “divina
inspiração”
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 08.10.05
Foto: Alfatihoun (Crusaders)
Iraque I: já
se sabe o que decidiu a guerra no Iraque. Não foram as
armas que não existiam nem os químicos que nunca
se encontraram. Também não foram os tormentos
de um povo às mãos de um ditador. Nem mesmo os
interesses petrolíferos das companhias norte-americanas
ou as expectativas de negócio com armamento, segurança
e reconstrução das firmas patrocinadas pela Casa
Branca. Confidentes de G.W.Bush revelaram que a decisão
do imperador, afinal, foi tomada por “inspiração
divina”. Pelo menos foi isso que este lhes garantiu...
Sabem que mais? Acredito piamente que o criminoso esteja convencido
disso mesmo. Até os piores canalhas precisam de justificações
para os actos que praticam. Só é péssimo
que dirijam o planeta em vez de frequentarem o psiquiatra.
Iraque II: com inspiração
ou sem ela, a administração norte-americana tem
uma política armada para o Médio Oriente. A sua
estratégia confunde-se com os meios que emprega. Mas
a ocupação multiplicou por cem todos os conflitos
que já antes atravessavam a sociedade iraquiana. A recente
tentativa das lideranças xiita e curda alterarem as regras
do referendo sobre o texto constitucional que federaliza o Iraque,
foi travada in extremis pelo ocupante. Mas de nada adianta este
sobressalto de bom senso momentâneo. Porque Washington
tinha dado o seu aval ao projecto imposto pelos seus aliados
no terreno. Agora, passou-lhes um atestado de menoridade que
não esquecerão tão cedo. E não contente,
Washington desencadeia entretanto as maiores operações
militares desde Falluja nos territórios sunitas que se
dispunham a ir a votos. Na Mesopotâmia, a política
armada tem o condão de irritar todos ao mesmo tempo.
Iraque III: Tony Blair
encontrou-se entretanto com o presidente Jalal Talabani e deitou
mais achas para a fogueira. Segundo o primeiro-ministro britânico,
“há novos engenhos explosivos a serem usados (pelos
terroristas) que nos conduzem quer a elementos iranianos, quer
ao Hezzbolah, apoiado pelo Irão”.
A diplomacia britânica que tem séculos de experiência
no Médio Oriente, ou se “passou” ou foi despedida
pelo mais perigoso e irresponsável dos dirigentes europeus.
Ao chamar a carta iraniana para o baralho, Londres abre uma
nova frente de conflito, agora com a maioria xiita. Enquanto
o desafio ao Irão se cingia ao seu programa nuclear,
as diversas pedras do mosaico ainda se encontravam no lugar.
Com este passo, que deixou o presidente curdo manifestamente
incomodado, Blair ensaiou a fuga em frente. Começaram
os preparativos para nova “inspiração divina”.
Teerão I: a hierarquia
reaccionária xiita encontra-se ante um dilema similar
ao da União Soviética nos primeiros anos da revolução:
consolidar “o xiismo num só país”
ou estender “a revolução islâmica”.
A vitória de Estaline sobre a velha guarda bolchevique,
representou a vitória da primeira escolha. Já
Teerão tem oscilado. Mas deixará de o fazer se
lhe retirarem a possibilidade de escolha.
De momento, Teerão joga um braço de ferro em
torno do seu programa nuclear. À luz dos tratados existentes,
julga-se, e com razão, no direito de o desenvolver “para
meios pacíficos”. Pelo seu lado, a União
Europeia sabe, com igual razão, que esta via é,
a prazo, a certeza de mais um país com armamento nuclear.
A equação tem saída, mas Londres e Washington
não a desejam: trocar o fim do programa nuclear iraniano
pelo relançamento dos acordos internacionais de desarmamento
nuclear.
Neste contexto, a questão nuclear passou a ser um emblema
de soberania. Se a Europa e os EUA esticarem a corda e, simultaneamente,
apertarem a tarraxa sobre a maioria xiita no Iraque e no Líbano,
a “revolução islâmica” ganhará
cores nacionais nos três países e fará dos
terroristas da Al Qaeda, e até da insurgência no
“triângulo sunita”, meras notas de rodapé
na convulsão que se avizinha. G.W. Bush e Tony Blair
têm que responder a uma pergunta muito simples: estão
preparados para uma nova guerra? Na realidade, não estão.
Mas que desencadeiam as ondas de choque que a tornam inevitável,
isso parece evidente.
mportas@europarl.eu.int
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