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Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 15.10.05
O Mário
Pereira saiu de Bissau em 2004. Com o 11º ano de escolaridade
e a vontade de ser jornalista. É alto e elegante, e fala
um português impecável. Decidiu partir após
a morte de sua mãe. Ela era a única razão
que o retinha na terra onde nascera. Tentou a imigração
legal para Portugal e para Espanha, mas recebeu em troca o silêncio.
Mas de um amigo em Madrid, recebeu o incentivo para a viagem.
“Vem”. E ele foi. Ele e quatro amigos. Com trocos
no bolso, uma mão cheia de vontade, e a certeza de que
ao longo da viagem usariam os braços para trabalhar.
O périplo durou dois anos. Primeiro o Senegal, depois
o Mali e a Líbia. Trabalharam sempre o suficiente para
as custas da viagem seguinte. 150 euros aqui, 200 ali, 50 acolá.
Não parece muito, mas é imenso para africanos.
Um deles ficou pelo caminho. Morreu. Do meu bloco de notas apagou-se
o nome e o lugar da ocorrência. Mas foi antes de Mário
Pereira ter trabalhado como agricultor nas terras férteis
dos arredores de Tripoli. Este foi o derradeiro compasso de
espera, antes da travessia da Argélia. Em Maragaia, o
grupo sentiu o cheiro do destino. Nesta cidade fronteiriça,
existe “um governo” que, a 50 euros, garante passagem
para Oujda, já em Marrocos. Daí a Melilla, é
um pequeno passo.
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Miguel Portas entrevista Mário Pereira,
guineense, no centro de acolhimento temporário de
Melilla |
Conheci o Mário Pereira numa das tendas do centro de
acolhimento temporário de imigrantes, em Melilla. Chegou
lá a 20 de Setembro e ainda não desesperou de
Madrid. Tem, aliás, uma estranha fé: a de que
o seu pedido será aceite pelas autoridades; que em Madrid
vai trabalhar para pagar a conclusão dos estudos; e que,
finalmente, se dedicará às notícias. Por
ora, é ele a notícia. Dei-lhe o nome que tem.
O nome que se merece numa história de homens e mulheres
sem nome e sem papéis.
No campo, ele os amigos estão bem. Podem ir à
cidade quando querem, desde que regressem até ao anoitecer.
O centro tem arruamento, pátios, árvores, serviço
médico, campo de basket, e até uma escola para
crianças. Não é um hotel de cinco estrelas,
mas é digno, decente. Porque a antiguidade é um
posto, os mais antigos têm dormitórios, e os mais
recentes, tendas de campanha. O problema é de sobrelotação.
Com capacidade para 400, abriga agora 1300. Apesar disso, o
Mário encontra-se no melhor dos lugares da sua viagem
inacabada.
Ele não sabe, mas um dia sairá dali para um centro
de detenção na Península ibérica.
Vai pensar que se aproxima de Madrid, que chegou mesmo à
Europa. Mas nesse novo centro, já não poderá
sair durante as horas de sol. O seu processo será deferido
em 40 dias. Ele não é refugiado, nem fugitivo
de guerra. Não pode obter direito de asilo. É
imigrante económico de um país com o qual Espanha
não tem acordos de repatriamento. Por isso também
não será colocado num avião de retorno
a casa. Vai receber apenas uma ordem de expulsão do centro.
Na rua, passará anos sem papéis e proibido de
trabalhar, a não ser para empresários sem escrúpulos.
Ele não sabe que esse vai é o prémio que
a “Europa dos valores” lhe reserva. Mas por ora,
está bem.
Até teve sorte. Do grupo inicial de cinco, sobram apenas
três. O quarto desapareceu na tentativa de salto da última
fronteira, a de Melilla. É uma muralha dupla de arame
farpado, de concertina. A primeira, de três metros, ainda
se passa, com escadas de madeira atadas por lenços. Mas
a segunda, de seis, é terrível. E no meio está
um corredor, uma vala vigiada pela Guardia Civil, que as autoridades
espanholas decidiram considerar como Marrocos, o que lhes permite
expulsar quem aí seja apanhado. Imagino-o por isso no
corredor que separa as duas barreiras, e devolvido à
procedência. Os que passaram, não sabem. No salto
da noite, não se olha para o lado, só para a frente.
Mas se não foi assim, podia ter sido. Foi o que se passou
com centenas de sem papéis nestes dias. Apanhados entre
cercas de concertinas, expulsos, amontoados e depositados, sem
comida ou água, em pleno deserto. Ou, depois de se conhecer
o crime, reconcentrados em Bouarfa, onde autocarros os levam
rumo ao Sul, para lugares de nenhures.
Dizer que a responsabilidade é de Rabat, é a
verdade que oculta uma mentira. O que se passou naquela fronteira
foi um outsorcing. A Europa paga a Estados que não respeitam
os Direitos Humanos para fazerem o trabalho sujo que não
fica bem às democracias. E lava daí as suas mãos.
Simplesmente deplorável!
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