| O
outro lado da guerra
Miguel Portas,
05.11.05
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Paris banlieue - graffiti
por MIST
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No
nordeste de Paris, grassa uma pequena guerra civil. Sabe-se
como começou, mas não se sabe porquê. Dois
jovens morreram electrocutados quando escapavam a um controlo
de polícia. Pode ter sido azar, excesso de zelo ou inépcia.
Certo é que, em reacção, grupos de jovens
suburbanos desataram a queimar automóveis e caixotes
de lixo. Durante uma semana, exibiram ao mundo e às
namoradas a sua raiva.
Quanto à Polícia, fez o que dela sempre se
espera. Organizou-se em pequenas brigadas, imitando os adversários.
Uma granada de gás lacrimogéneo voou, entretanto,
contra uma mesquita, o que não ajudou. A luta pelo poder
da noite alastrou a novos bairros. Quanto ao chefe do mega
bando dos “bons”, o ministro do interior francês,
Nicolas Sarkozy - que quer ser Presidente da República
com os votos dos eleitores de Le Pen -, vituperou a “escumalha”,
essa “gangrena” que é preciso “limpar”.
Para que se percebesse quem manda, Sarkozy usou o jargão
das ruas. Um ministro distanciou-se publicamente da “semântica
guerreira”, e o gabinete do primeiro-ministro veio a
público afirmar a sua “vontade de evitar incompreensões
susceptíveis de conduzirem a novos afrontamentos”…
Agora, as coisas devem acalmar. Entre putos em bandos e bandos
de polícias, estão familiares e vizinhos, as
vítimas da violência exibicionista. O Ramadão,
mês de jejum dos muçulmanos, acabou. Isso ajuda,
porque ele não é apenas um tempo de recolhimento
e sacrifício. Entre as cinco da tarde e as cinco da
manhã, as horas são de festa e compensação.
Agora, é provável que boa parte dos miúdos
regressem aos lares. Finalmente, a acção dos ímans
das mesquitas, que saíram para as ruas arrefecendo os
confrontos, revelou-se mais eficaz do que a força bruta.
Mas, independentemente das temperaturas, os factos aí estão.
E um dia destes regressam.
A esquerda gosta de explicar este tipo de revoltas com a pobreza
e a desumanidade dos bairros sociais. Na violência das
megalópoles da América Latina, esses factores
podem ser os decisivos. Mas duvido que o sejam em Paris. Embora
sob ataque, o Estado social existe em França. O salário
e o rendimento mínimo francês estão muitos
pontos acima dos nossos, e subtraíram à pobreza
extrema a grande maioria das famílias. Quanto aos bairros,
são problemáticos, mas bem melhores do que os
nossos. Até o fim das verbas para os programas de mediação
cultural, que mantinham frágeis elos de ligação
entre as culturas suburbanas e os poderes públicos,
conta, mas não é decisivo.
O Le Monde de quinta-feira passada revelava um estudo que
confirmava o aumento dos níveis de violência entre
os jovens. Entre as suas causas, a pobreza familiar era um
factor secundário. O busílis da questão
está noutro lado: no desenraizamento.
Estes miúdos não são nem “escumalha”,
nem “assassinos”. Também não são
uma “geração à rasca”, que
vê frustradas as expectativas que os poderes políticos
lhes prometeram. Não. Estes boeurs e negros dos subúrbios
de Paris são, simplesmente, uma geração
sem expectativas. São miúdos que reconhecem no
bairro o seu território, a sua “pátria” e
espaço de afirmação. Aí, um polícia é um
estrangeiro, e um ministro idiota e reaccionário, um
general de tropas de ocupação. Estes miúdos
já não são, como os seus pais, argelinos
ou marroquinos. Também não são subsaharianos
- a irregularidade da sua situação já lhes
chega e sobra como alhada. E muito menos são franceses
ou europeus, apesar de aí terem nascido e crescido.
Não. Estes miúdos são, ao mesmo tempo,
do bairro, do mundo que vêem na TV, e das Nikes que calçam.
São do Mundo e de lado nenhum. Antecipam o futuro, aliás
como os polícias de choque, com os seus chefes e tiranetes.
Não é por acaso que as imagens dos noticiários
reproduzem tão fielmente os ambientes dos filmes de
ficção científica pós-nucleares.
Depois de tudo ter estoirado, os sobreviventes reconstroem-se
em universos moleculares, cuja lei fundamental é a incomunicação.
Estes putos não vão ao cinema. Mas vêem
a guerra em Bagdad e ouvem discursos sobre a democracia. Sabem,
de experiência própria, que ser muçulmano
na Europa é complicado. E cheiram o medo que inspiram.
Esta violência urbana é o lado civil do clima
de guerra em que o Mundo vive. Por paradoxal que pareça, é uma
tentativa desesperada de comunicação. Do gueto
para o Mundo.
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