| Deus
fez-nos feios
Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 23.09.2006

Algures na Kalmukia, dirigida com mão de ferro por um "Rockefeller
das estepes", inicia-se dentro de quinze dias a grande final
do xadrez mundial. Habitada por 350 mil humanos e três milhões
e meio de ovelhas, parece um lugar apropriado. O "fim do mundo" está muito
bem para uma arte que, nas últimas décadas, foi palco
de desafios que tinham a virtude de ocultarem outras guerras frias
e quentes. O mundo seria melhor se pudesse resolver os seus diferendos
na frente de um tabuleiro, em vez de os planear na mesa dos mapas
militares.
Não se trata de "lengalenga pacifista", mas de
simples exercício da razão. "Povos atrasados" do
Sul da África fizeram assim durante séculos. Mesmo
gregos e cartagineses, num momento de "razão",
delimitaram fronteiras no deserto líbio através de
uma corrida. Dito isto, são no mínimo irrazoáveis
os exercícios que tentam estabelecer nexos apertados entre
Razão e a Religião ou Razão e o Progresso.
O maior acto de terrorismo fulminante ocorreu no século
XX, com a mais moderna das tecnologias militares então conhecida
- a arma atómica - e pelo mais racional dos países
- os Estados Unidos da América.
Regressemos ao xadrez, que Lenine, por uma vez cândido, classificou
de "ginástica do espírito". Um outro autor
que prefere o killer instinct os finais de partida à estratégia
que o prepara, disse que o xadrês é uma "arte
mais próxima do assassinato do que da guerra". Eis
um sintoma de barbarismo antigo e moderno de que não se
pode acusar o cardeal Ratzinger que se esconde por detrás
de Bento XVI.
Nem o diálogo do Imperador bizantino, da lição
de Ratisbona, com o emissário persa foi um equívoco,
nem o posterior recuo foi força das circunstâncias.
Ratzinger estabeleceu a ortodoxia da fé; Bento XVI moderou
a sua razão. Dois meses antes da visita à Turquia,
o cardeal disse-lhes que a Europa é cristã e que
Ancara deve ficar à porta; largado o recado, o Papa explicou
que o diálogo ecuménico se deve fazer com cada um
em seu sítio.
Claro que as reacções foram, como está em
uso dizer-se, "desproporcionadas". Sucederam-se as manifes
e as fanfarronadas género "Roma cairá como Constantinopla".
Do lado de cá, mil Vascos Pulidos Valentes sentiram-se no
paraíso. Está provado que "a fé muçulmana
sustentou durante 15 séculos uma civilização
frustre e parada", enquanto a cristã ergueu "um
dos mais sublimes monumentos à razão humana".
Só apetece perguntar, oh Deus, achas mesmo que nos fizeste à tua
imagem e semelhança?
Ferenc Gyurcasany e o preço da verdade
Entrou nas bocas do mundo porque disse aos pares da comandita
algo que eles tinham a obrigação de saber: que se
ganham eleições a aldrabar os eleitores. O que se
estranha é que massas ululantes e noctívagas exijam
a demissão deste antigo jovem comunista no exacto momento
em que, yuppie capitalista reconvertido, tenha distinguido o povo
com um minuto de verdade. Pobres e mal agradecidos, hem?...
Bhumibol Adulayej e o segredo do poder
Com 78 anos, o rei da Tailândia deu posse a 21 primeiros-ministros,
assinou 16 Constituições e confortou 18 golpes de
Estado. Esta digna instituição do livro dos recordes
acaba de assistir ao 19º golpe da sua carreira. Agiu a tropa
em seu nome. Contra um tal Thaksin Shinawatra que aproveitou a
sua passagem pelo palácio para se transformar num oligarca
das comunicações e da aviação comercial.
Devem estar bem um para o outro. Quem parte e reparte e não
fica com a melhor parte...
Miguel Portas
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