| 'Caso
empolado'
Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 30.09.2006

Em Novembro do ano passado, cinco maduros dirigiram-se a Den
Helder, uma pequena vila atlântica do Norte da Holanda. Queriam verificar denúncias
sobre exploração e maus-tratos aplicados a trabalhadores portugueses
ao serviço de uma agência de trabalho temporário, a The
Five. Os maduros eram cinco: dois jornalistas, o conselheiro da comunidade
portuguesa na Holanda, a responsável social da Embaixada
e eu próprio. O que apurámos foi relatado pela RTP.
Ao longo de meses, continuámos a falar com portugueses que
tinham passado por Den Helder. Alguns tiveram coragem para dar
a cara e as autoridades holandesas abriram uma investigação.
Realizaram-se,
entretanto, dois encontros de trabalhadores temporários
portugueses, em Roterdão e Ardenhout, com uma centena
de pessoas cada. Outros abusos vieram a lume. Posso, sem exagero,
falar de uma comunidade em revolta. Indignada.
Infelizmente, nos
serviços diplomáticos, a voz corrente
era a de que «a montanha parira um rato». Tanto seria
o exagero, que até a conselheira social da Embaixada foi
exonerada. Quanto ao inspector-geral do trabalho, Paulo Morgado,
disse há dias na RTP-Internacional que «o caso da
Holanda foi empolado».
Pois bem, esta semana chegou a resposta,
assinada pelo secretário
de Estado holandês dos Assuntos Sociais e do Emprego: «Foi
estabelecido que a agência The Five pagou abaixo da lei a
numerosos trabalhadores portugueses», que lhes deve pagar
o que esteja em falta e que as vítimas «podem iniciar
um caso civil» contra a firma. Não é muito.
E faltam ainda as conclusões de uma segunda investigação,
esta de ordem criminal. Mas é um começo.
A vida de
jornalistas, de profissionais diplomáticos conscientes
e de activistas sociais ante os buracos negros da nossa modernidade, é tramada.
Procuram ser úteis e raramente vêem resultados. Persistem,
insistem e são vistos como chatos de serviço, quando
não como arrivistas. A vida de parlamentar europeu também
deixa amargos de boca. Neste caso, foi diferente, valeu a pena.
Não sucede muitas vezes, mas acontece. Só é preciso
procurar.
Tanta razão
José Sócrates acusou Marques
Mendes de irresponsabilidade, a propósito da proposta de
criação de um sistema misto de Segurança Social.
Invocando um estudo nunca publicado pedido pelo anterior Governo
de direita, explicou que as simulações sobre esse
modelo agravariam a dívida pública do país
em muitos mil milhões de euros nas próximas duas
ou três décadas. É óbvio. Alguém
terá de pagar o que os salários mais altos deixam
de descontar. Em contraste, Marques Mendes acusou o primeiro de
apenas querer «remendar» o sistema. Também tem
razão... E esta, hem?
Tem o insuspeito Fórum Económico Mundial
um ranking sobre a competitividade dos países. Portugal
perdeu umas posições. Era de esperar, dirá o
leitor pessimista. Talvez. Sucede que a quebra se deve ao comportamento
do sector privado e não do sector público. Este melhora
na generalidade dos índices. Quem perde é o mundo
empresarial. Em todos os itens relevantes, da investigação à eficácia
das administrações. O nosso Estado é deficiente,
pois é. Mas o drama nacional é a burguesia que temos.
Ignorante, dependente e nova-rica.
Miguel Portas
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