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O jantar envenenado

Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 02.12.2006

 


Imagem: Stephen A. Nuño

 

Os jornais da manhã eram contraditórios. Cada notícia era, em si mesma, uma confusão pegada. Em causa estava, na quarta-feira passada, o jantar do 74° aniversário de Jacques Chirac. Nos anais da diplomacia, raramente se viu repasto tão polémico. Garante o geralmente bem informado Le Fígaro, que a ideia do hóspede da cimeira da NATO, em Riga, era oferecer uma "geral" aos presidentes e primeiros-ministros presentes. No fim, Chirac sopraria nas velas, cortava o bolo e tudo acabava em bem. Mas o vetusto e empedernido presidente francês tinha outra ideia. De acordo com fontes da NATO, ele queria jantar a sós com os seus amigos. Num restaurante arménio e, portanto, sem Tony Blair e G.W. Bush.

Confesso admiração pelo impenitente. Aos 74 anos, Chirac continua a ter vícios privados. Gosta de celebrar em companhia escolhida. Mesmo que tal capricho abrisse uma aflitiva guerra de garfos, facas e teatros de operações nas fileiras da Aliança. Eis senão quando se intromete Putin. O presidente russo gostaria de, presencialmente, dar os parabéns ao aniversariante. Sugestão: um jantar a dois, mais o hóspede letão. Grande ideia, pensaram os estrategas alimentares do Eliseu. Aí estava o aniversário de Chirac como pretexto para "a primeira visita de um presidente russo a um país do báltico", uma operação de elevada "significação diplomática". Enorme. E intolerável para os norte-americanos, que veriam Putin transformado em rei da festa da cimeira, selando o definitivo fracasso do conclave.

Não imagino como acabou esta edificante história. Imagino que à hora de almoço ainda se discutisse a lista dos convivas. E que a partir do café, os staff's tenham passado ao menu e ao restaurante. Acredito que Putin acabe por invocar razões de saúde para não se deslocar a Riga. Afinal, esteve lá, não estando; lançou a confusão no in, um presente que o seu amigo francês decerto apreciou; e poderá jantar tranquilamente no Kremlin, sem receio de retaliações da secreta britânica com Tallium no copo de água. Provavelmente, Chirac acabará por engolir G.W. Bush ao jantar. Mas esta horrorosa perspectiva é simplesmente metafórica. No fundo, no fundo, ninguém deseja tal indigestão... pelo menos em dia de anos.

 

Afinal Europa

O cardeal Ratzinger cedeu finalmente o lugar a Bento XVI. Onde o primeiro escrevera sobre a natureza cristã da Europa e a incompatibilidade entre esta e uma possível adesão da Turquia à União, o segundo explica agora que nada disso, e que gostaria muito de ver Ancara do "lado de cá". Contradição? Impressão sua. Simplesmente iluminação. Milagre. Não duvide, por favor. Como se sabe, a figura papal é dotada de infalibilidade por sopro divino e não faz política...

 

Equador ao rubro

É definitivo e sem espinhas de contagem: Rafael Correa, candidato das esquerdas equatorianas, derrotou por enorme margem de votos o eleito dos gringos, que era também o mais rico cidadão do país e o seu principal bananeiro. Neste domingo, por seu lado, Hugo Chavez deverá renovar nas urnas o seu mandato. Moral da história: enquanto o Império espalha as suas tropas pelo Iraque e pelo Afeganistão, com os resultados conhecidos, nas suas traseiras, os pobres levantam-se. O cobertor de Washington é curto demais para o planeta.

 

Miguel Portas