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Degola

Miguel Portas
06.01.2007

«Nós teríamos feito as coisas de maneira diferente», comentou o general William Caldwell, das forças norte-americanas no Iraque, sobre o linchamento de Saddam Hussein. Acredita quem quiser. Ainda ouviremos outro cinco estrelas a dizer que, se fosse ele a mandar no tempo certo, as coisas teriam sido diferentes no Iraque. E, nesse momento, também acreditará quem quiser.

Entretanto, os factos falam por si. Foram soldados norte-americanos quem apanhou na toca o antigo ditador e o mostrou ao mundo desse mesmo modo. Eram suas as tropas que o mantiveram em cativeiro. No mínimo, actuaram como o governador romano de quem a Bíblia tanto mal diz. Foi ainda a Administração norte-americana que recusou um tribunal internacional para julgar os crimes do ditador. Foram especialistas norte-americanos que prepararam o tribunal, a formação de juizes e acusadores, e até a segurança da sala. Fizeram-no, sabendo que a lei iraquiana previa, aliás como vários Estados dos EUA, a pena de morte. E foi ainda o Presidente Bush quem manifestou agrado pela pena de um tribunal que funcionou de todos os modos menos os regulares. Podia ter sido diferente? Scott Stanzell, porta-voz da Casa Branca, acha que «estas questões respondem-se melhor desde o Iraque». Ou seja, que tudo vai bem quando acaba em bem.

Um alto funcionário iraquiano captou, entretanto, imagens que só destoam das oficiais por mostrarem que o verdugo se saiu melhor do que os carrascos. Linchado em plena festa do carneiro, e impedido de dizer a oração da partida, o ex-ditador morreu como queria. Como bom muçulmano e sem medo do além. Podia ter sido diferente? O episódio das imagens de telemóvel funciona como metáfora do atoleiro iraquiano. Por ali, nada, mesmo nada, pode correr bem ao ocupante. Para boa parte do mundo árabe, a ditadura do morto assemelha-se a um oásis de civilização ante o festim dos demónios libertados pela ocupação. O que é trágico é que não estão longe da verdade. Com uma diferença: se Pôncio Pilatos pensou que tudo poderia ter corrido de outro modo, lavou daí as suas mãos...



A Festa do Sacrifício

Assinala o momento em que a vontade divina poupa a vida ao filho de Abraão e este, em troca, oferece a Deus um carneiro. Dura três dias, e o tempo fez deste momento alto da tradição muçulmana uma verdadeira festa. Nos dias que antecedem a celebração, as famílias entram em frenesim para arranjarem um animal para a degola... e os repastos. O facto de os xiitas iraquianos terem usado esta data para o linchamento, apenas agrava o acto aos olhos dos sunitas.


Moratória

França e Itália vão propor na ONU uma moratória sobre a aplicação de penas de morte. Pode ser que, à terceira iniciativa, ela seja aprovada. Mas não é provável. Grandes Estados continuam a incluí-la nos respectivos códigos penais, não querendo abdicar das suas prerrogativas de soberania. E, neste domínio, poucos se podem apresentar com autoridade para falar. Na Europa, a Roménia, acabada de entrar na UE, aplicou a pena máxima ao casal Ceausescu, num julgamento que fez o de Bagdade parecer um exemplo de decência. Foi há 17 anos.


Miguel Portas