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Carros e chaminés

Miguel Portas
13.01.07


Durão Barroso apresentou esta semana a sua política para a energia. A presidência alemã e portuguesa agarrarão com as duas mãos a oportunidade. Aquele é o único domínio onde a União, paralisada, pode avançar novas políticas comuns. Deve fazê-lo. Para os políticos, o problema nº 1 é a dependência energética. Quando a Rússia espirra, a Europa constipa-se... Para os cidadãos mais informados, o drama é outro – se não diminuem as emissões de CO2, o aquecimento global do planeta será irreversível. Pensar que isto se resolve somando políticas nacionais é o mesmo que admitir que a poluição conhece fronteiras.

Outra discussão são os remédios. A Comissão evita tocar na questão de fundo: de pouco adianta que a indústria europeia seja ‘limpa’, se as multinacionais concentram na China as nossas antigas chaminés. E muito menos adianta ‘ressuscitar’ o nuclear, se isso permitir que continuemos, no primeiro mundo, a viver para consumir. Anda por aí uma doença antitabagista em nome da saúde. Mas nenhum governo cuida de atacar a poluição automóvel porque isso poria em causa os alicerces do nosso modo de vida – individualista, proprietário e gastador. No entanto, é disso que se trata. A Comissão quer ‘poupar-nos’. A panóplia de medidas e instrumentos colocados à disposição alimenta uma perigosa ilusão: a de que não é necessária uma ruptura desde que o cidadão pague os custos do aquecimento global. Claro que há, pelo meio, muitas medidas boas que Portugal deve aproveitar até ao tutano. Temos todos os atrasos de um país trapalhão, tardiamente chegado à sociedade de consumo. Um Governo responsável deveria fazer da política energética, mais do que das exportações, a mola principal da modernização do país.

Uma segunda crítica de fundo à timidez na redução das emissões respeita à realpolitik: Barroso não quer que a Europa corra ‘depressa demais’ quando o mundo ainda anda às arrecuas. Com tal opção não se evita o destino. Já que andamos a reboque dos EUA, ao menos que paguem a sua parte da factura...

Igreja sob ataque

Na Polónia, a caça às bruxas atinge agora a própria Igreja. O arcebispo de Varsóvia foi acusado de ser espião da antiga Polícia secreta e o Papa anulou a nomeação. 12 outros bispos estão na calha. E já antes os heróis do Solidariedade, de Lech Walesa a Jacek Kuron e Adam Michnick, tinham sido acusados, pela direita neofascista que governa, de ‘colaboracionistas’. Diz-se, e bem, que as revoluções tragam os seus próprios filhos. No caso da polaca, é caso para dizer que nos encontramos ante um parricídio.


Igreja ao ataque

O panfleto tem o rosto de Maria, de lágrima no olho, e pergunta «o que pode acontecer no ano em que se comemoram os 90 anos das aparições». Coisas péssimas, já se sabe. Mas ao panfleto só interessa o «assassínio brutal de inocentes ainda no ventre materno». Contra o crime, apela-se ao voto. E também à oração. Para ajudar, o panfleto vende também um «estojo do Terço da Vida» e o livro O Rosário da vida. Custa 10 euros. Como ‘doação’...

 

Miguel Portas