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Sapateado

Miguel Portas
17.03.07

 

Que aconteceu de mais importante esta semana? Eis uma pergunta sem outra resposta que não a das mil respostas. Tudo depende do lugar de onde se observa e da corda que tocou mais alto. Para as trabalhadoras da Rhode, na Feira, o que lhes ocupa a mente é a multinacional que as tramou, o horizonte do desemprego e a raiva da impotência. Qualquer uma delas tem, decerto, outras preocupações. Mas esta é a que domina, por estes dias, a sua visão do mundo. Ingrato o bastante para que, ontem, tenham exprimido a sua revolta.

Elas sabem que outros e outras se confrontam, neste preciso momento, com dramas similares. Sabem, até, que cada caso é um caso no caso global das falências, deslocalizações e planos de redução de pessoal, embora isso não lhes aqueça o coração.

Os líderes europeus falam da criação de oito milhões de postos de trabalho nos próximos anos. Mas suspeito que evitam os saldos de conta. Só a Alemanha perdeu três milhões e meio empregos industriais na última década.

Qualquer pessoa sabe que a economia é destruição e criação. Mas temos, também, a obrigação de discernir entre justo e injusto, e disso se não ocupa o mercado. Eis o que implica a política. Só esta pode corrigir a cegueira do laissez-faire.

Se há défice de política na economia, ela peca por excesso onde deveria ser mínima. Por exemplo, é opinião corrente entre os melómanos que o São Carlos ia bem. Que, passo a passo, a sala readquiria prestígio e públicos.

Se assim é, a política devia estar quieta e acarinhar. Mas não. Pelos vistos, há quem só conceba a política como assinatura dirigida à posteridade.

Diz Paolo Pinamonti, o director despedido do teatro São Carlos, que conhecia o secretário de Estado e que o convidou para jantar em sua casa. Em seguida acrescenta, filosófico, que «se calhar, o poder muda as pessoas». Não é ‘se calhar’. Muda mesmo. Em regra, para pior.

A chatice é que a vida não é senão um intrincado novelo de relações de poder. E a política, por maioria de razão. O paradoxo é que, quanto mais o tempo avança, mais ela é tentada pelo que não precisa e se demite do que deve.

 


Iraque

Há exactamente quatro anos, uma cimeira nos Açores decidia lançar o caos no Médio Oriente. O porteiro era português, já reconheceu que não sabia das mentiras, e foi premiado com a presidência da Comissão Europeia. A História tem destas nódoas.


Palestina

Entra hoje em funções o novo Governo palestiniano de unidade nacional. Finalmente, uma boa nova na terra das más notícias. Porque afasta o espectro da guerra civil; porque assinala a emergência autónoma da diplomacia árabe, em cenários de ingerência e conflito; e porque confronta a comunidade internacional. Se é previsível que os EUA mantenham o bloqueio, o desafio está dirigido à Europa. Suspeito que entraremos na era do ‘Nim’: mais dinheiro e bloqueio aos ministérios do Hamas. A mais esdrúxula das posições…

Miguel Portas