| Golpe
constitucional
Miguel Portas
14.04.07

Nesta coluna escrevi que um novo Tratado para a Europa, que salve
o que franceses e holandeses chumbaram, dependeria dos povos serem
retirados da equação. As notícias vindas a
lume confirmam o golpe em preparação. Exactamente,
um golpe: porque esse texto será um remake do antigo, já rejeitado
por dois povos, o que pela regra dos próprios Tratados,
implica a sua morte; e porque se quer ressuscitar na secretaria
o que se receia perder no voto popular.
Entretanto, Durão Barroso falou com José Sócrates.
Este, por sua vez, sondou Marques Mendes, que se distanciou. Acto
contínuo, Deus Pinheiro classificou de irresponsável
a posição do seu líder, e o guarda-chuva de
todos, Cavaco Silva, lembrou que referendar a Europa não é com
ele. Finalmente, o primeiro-ministro registou, agradado, a posição
do PR, recordando embora o compromisso socialista com a consulta
popular. O caldinho está em marcha. Em Portugal e pela Europa.
É estúpido porque os líderes europeus perdem
sempre. Se impõem o Tratado expropriando os povos do seu
direito de opinião, a irritação será vingada
nas europeias e legislativas que se seguem. Se a operação
falha, liquidam a própria ideia de Tratado Constitucional
para a Europa. E é ainda estúpido, porque a obstinação
não é a única via. Cavaco Silva já explicou
que a União pode esperar alguns anos por novo Tratado.
Os bastantes, digo eu, para se concluir um processo constituinte
digno. Nada impede que o próximo Parlamento Europeu (PE)
seja dotado de poder para redigir a primeira versão de um
novo Tratado. Na campanha, os partidos europeístas apresentariam
os seus projectos, e os soberanistas sei lá o quê.
Com data e voto, este debate é popular e clarificador.
Depois de escrita, a versão do PE seria submetida aos governos e aos
parlamentos nacionais para emendas, e o compromisso final ratificado pelos
Estados, de preferência em consultas populares. Em 2012, a União
pode ter um Tratado que resulte da vontade popular e das soberanias nacionais.
Sem espinhas nem golpadas.
Claro que o procedimento não garante, em si, um fim feliz.
Mas potencia a possibilidade. Chama os povos, em vez de os afastar.
Força os populismos a dizer ao que vêm. E centra o
debate nas alternativas com futuro. Em tempos de divórcio
entre os de cima e os de baixo, é o mínimo que se
exige.
Imprensa
O acórdão do Supremo que condena o Público
a 75 mil euros de indemnização por ter noticiado
que o Sporting tinha uma dívida ao fisco, «ofendendo
ilícita e culposamente o crédito e o bom-nome do
clube de futebol» deixa-me estupefacto. Não sou juiz
nem advogado. Mas conheço o critério da proporcionalidade.
Se a ofensa fosse o resultado de uma falsa informação,
não teria dúvida na sua justeza. O boato impresso
deve ser exemplarmente punido. Mas a notícia era verdadeira.
Claro que ofendeu o faltoso. Mas deveria, por causa disso, não
ter existido? Ou ser penalizada por ter existido? Eis o entendimento
do Supremo. Dar-lhe razão é admitir que a liberdade
de informação se decide na tesouraria de um órgão
de informação. Aí se passa a ponderar que
notícias valem o preço de uma indemnização.
No tempo da outra senhora, tínhamos censura por via política.
Agora regressa por via financeira. O Supremo devia ter vergonha
na cara. E que me processe por ter ofendido o seu bom-nome.
Miguel Portas
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