MiguelPortas.net - Novas  Miguel Portas - Opinião
 

Miguel Portas
05.05.07

 


Finalmente

O que tem de ser tem muita força, e até Marques Mendes, a contragosto, acabou por o reconhecer. Lisboa vai a votos e apetece dizer, finalmente.

Contrariamente ao que muito boa gente pensa, o motivo para a eleição não decorre de o presidente da Câmara ter sido constituído arguido. Um arguido é inocente até prova em contrário. A ele, e só a ele, compete decidir da suspensão, ou não, do mandato. Este critério é válido mesmo para as piores suspeitas, como as de corrupção, tráfico de influências ou manejo da lei em benefício de particulares.

Defendo este critério para Carmona Rodrigues, como para qualquer outro autarca. Só abri duas excepções a este ponto de vista: quando Fátima Felgueiras decidiu ir passar férias prolongadas para o Brasil e, nessas condições, se recandidatou; e quando o brutamontes de Marco de Canaveses, embora condenado em primeira instância, ainda tinha pendente uma decisão de recurso.

A realização de eleições em Lisboa era inevitável porque insustentável era a situação do município. A crise era de legitimidade. Primeiro, foi a ruptura entre PSD e CDS que acabou com a maioria de governo. E, depois, a estocada final na credibilidade do executivo chegou com a suspensão de funções dos números dois e três da Câmara, com ligação a um caso judicial que, por sua vez, teve o seu prolongamento numa denúncia de tentativa de corrupção sobre o vereador Sá Fernandes. Os números dois e três condenaram o número um a idêntico comportamento, caso viesse a ser constituído arguido. Ainda bem que vingou o bom senso. Lisboa com um executivo à moda de Setúbal seria um fado simplesmente insuportável.

O mesmo bom senso recomendaria, ainda, que os partidos se pusessem de acordo para estender as eleições à Assembleia Municipal. Nada na lei assim obriga. Mas qualquer lisboeta percebe que a cidade só ganha com a clarificação. Dar a mão à palmatória é melhor que meia mão, mesmo para o PSD. Em qualquer caso, perderá a eleição. Mas não poderá ser acusado de se querer agarrar desesperadamente aos lugares, quando o sentimento dos lisboetas é o de que esta página deve ser definitivamente virada.

P.S. – Esta crónica foi escrita antes de Carmona Rodrigues vir dizer que não coincidia, afinal, com Marques Mendes...


O debate

De um lado, ela defendia as 35 horas; ele, as horas extraordinárias com benefícios fiscais. De um lado, ele queria acabar com os regimes especiais para financiar a segurança social; ela propunha uma taxa suplementar sobre as grandes fortunas para sustentar o sistema. Foi assim em quase tudo. Se for eleita, Ségolène até pode esquecer-se do que disse. Mas os socialistas portugueses deviam ter visto, ouvido e corado de vergonha. Ao longo de três horas de grande nível, foi Sarkozi quem defendeu o núcleo duro das políticas que, por cá, José Sócrates pratica. C’est la vie...


Tabaco

Eu, fumador impenitente, me confesso. Por três vezes comecei e por duas abandonei. Tenho na algibeira a promessa de um novo esforço. Assim se fará, mas não porque uma lei me guetize. Proteger quem não fuma, está bem. Perseguir o fumador, está mal. Anda por aí à solta uma cultura de proibição que nos promete um mundo sem vícios, do tabaco ao álcool, passando pelos prazeres da comida ‘errada’ e logo se verá que mais. A virtuosidade é o vício dos fundamentalistas. Sinceramente, prefiro os meus.

Miguel Portas