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Miguel Portas
02.06.07

Por tudo e por nada

Ao fim do dia, o Governo cantava vitória e Carvalho da Silva fazia o que podia para diminuir os danos.

Pela voz de um mero secretário de Estado, o Governo anunciava que «os trabalhadores portugueses rejeitaram maciçamente a greve». Num passe de mágica, o poder confundia a fraca adesão como uma prova de apoio à sua política.

Já com a CGTP se passou exactamente o contrário. Procurou desvalorizar a ‘guerra dos números’ e reafirmar as razões do descontentamento.

Desta greve pouco geral, resultam duas evidências: nem o Governo pode reclamar para si os não grevistas, nem a CGTP pode deixar de avaliar o passo que decidiu dar.

Que o Governo se não engane a si próprio. Muitos não grevistas gostariam de ter feito a greve. E outros a fizeram sem a declararem como tal, para não perderem o dia. Medir o descontentamento pela fraca adesão é um erro que o Governo pagará mais lá para diante. Quando, a 17 de Outubro, os sindicatos saírem de novo à rua por ocasião da cimeira informal de primeiros-ministros da UE, outro galo cantará.

Mas também a CGTP está obrigada a uma avaliação séria do seu voluntarismo. Esta foi a menos geral das greves gerais. Ela expôs as fraquezas em vez de valorizar as forças. Uma greve geral para ‘sacudir as coisas’ é uma greve por todas as razões, ou seja, sem objectivo preciso e mensurável.

Aquando do código de Bagão Félix, parte substantiva dos trabalhadores percebeu o que estava em causa, e dispôs-se a perder um dia de salário. Agora, os sindicatos confundiram o descontentamento social que grassa pelo país com a vontade de adesão a uma greve política. Convém que nunca mais repitam o erro.

O voluntarismo nunca acumula forças, esgota-as. Isola os sectores mais activos da massa dos trabalhadores. E instala nestes a suspeita de que os seus sindicatos obedecem, antes do mais, à agenda de um Comité Central que não ouve, sequer, os militantes mais avisados do partido.

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Espertezas

A partir de agora, passa a ser possível, sem concurso, e com apenas 30 por cento do capital, uma empresa privada adquirir um monopólio ad eternum numa área de negócio de necessidades infinitas: o parqueamento e estacionamento pago.

Aconteceu em Sintra, com a entrada da Gisparques no capital da empresa municipal de estacionamento, a EPMES. Por 200 mil euros de investimento, a firma remunera-se com 42 por cento das receitas de estacionamento pago, independentemente das despesas. A entrada no capital é mais do que amortizada no primeiro ano e o mesmo sucede aos investimentos previstos para os próximos oito anos. Ou seja, a EPMES passa a ser, simplesmente, um lucrativo fundo de caixa da Gisparques. Chama-se a este roubo do erário público um nome pomposo: ‘remuneração da gestão operacional’.

No BCP, alguém disse a Jardim Gonçalves que montasse uma OPA se quisesse mandar no banco. Em Sintra, não é preciso. Fernando Seara, Luís Duque e João Soares acham que 40 mil contos é o preço justo para a obtenção de um monopólio eterno…

 

Miguel Portas