| 23.06.07
Uniões sagradas
Pergunta-me outro dia um jornalista se estaria de acordo com uma
trégua política durante a presidência portuguesa
da União Europeia, em nome do “superior interesse
nacional”. Lá o desiludi. Não descortino o
que isso signifique. Quer na nação, quer na Europa,
sempre vi os que ganham e os que perdem e, entre uns e outros,
tenho dificuldade em descortinar o que os possa unir. Dir-me-ão:
talvez o futebol. Mas até aí há quem goste
e quem odeie. E até quem, gostando – é o meu
caso – detesta que em nome da bola se gaste o que se gasta,
e se arrepie com o modo como esse mundo é dirigido.
O apelo à “união nacional” é secular
e salazarento. Mas hoje é mais do que isso. É algo
que só se pratica nos países periféricos da
União e como sofisticada forma de provincianismo. Se avalio
cada presidência da UE em função do que fez
ou deixou de fazer para a Europa, porque usaria distinto critério
para a portuguesa? Porque se há-de sobrepor o “espírito
nacional” ao europeísmo, quando a função
respeita à Europa? Porque se deve facilitar a vida a um
presidente da União, só pelo facto deste, durante
seis meses, ser do meu país? Conversa da tanga, portanto. Questão distinta é a de saber se ficaria contente
por um primeiro-ministro português ter “estado à altura”.
Ficaria. Não temos assim tantos motivos de orgulho para
dispensarmos o que possa surgir. Mas sabem, é pouco provável.
No momento em que escrevo, não se conhecem ainda as conclusões
do mais importante conselho europeu dos últimos anos. Pode
ter ficado tudo empatado, podem os primeiros-ministros ter decidido à europeia,
ou seja, pelos mínimos, ou podem mesmo ter arrumado as diferenças.
Mas há algo que já se sabe: a única decisão
em que estão todos de acordo é em afastar os respectivos
povos da ratificação do que se venha a decidir. Com
maior ou menor acordo, coincidem na vontade de partir o defunto
Tratado Constitucional em vários tratados ou emendas aos
tratados vigentes. Esta trapalhada tem um só objectivo:
explicar às opiniões públicas que nenhuma
das partes, de per si, justifica referendos.
Nem é preciso ser mosca para saber o que, na reunião,
terá dito o gémeo polaco ou Tony Blair: não
querem as nossas sugestões? Muito bem, nessas circunstâncias,
levaremos a referendo o que aqui se decidir. E toda a sala terá tremido
como varas verdes. É assim a política na Europa dos
governos. Cândida e bruta. Chamam-lhe o “superior interesse
europeu”. Querem que acredite neste modelo? Levo a Europa
demasiadamente a sério para isso. ..................
Lisboísmo
Quer Helena Roseta que o pelouro do urbanismo “não
seja de um só partido, mas de todas as forças políticas”.
Tudo menos isso! A política chegaria ao grau zero, se à queda
de um executivo com vários processos por suspeita de corrupção
ou favores, o resultado fosse… o de todos se sentarem à mesa
onde “elas se fazem”. Há exemplos. Em Beirute é assim
há 60 anos. Acabaram todos no toma-lá-dá-cá.
Da direita para a esquerda, ou vice-versa. Nesse modelo, não
se governa. Quem governa, governa-se. Sem real oposição,
porque sobra sempre algum para amaciar os renitentes. A solução
para Lisboa não é “todos juntos”, mas
uma nova maioria que remeta para a oposição a que
lá esteve: PSD, CDS e Carmona Rodrigues. É assim
a democracia.
Miguel Portas |